Uma exposição de Thayná Tinarelli
A produção de Thayná Tinarelli habita uma zona sensível em que corpo, memória e imaginação se entrelaçam em imagens de grande intensidade poética. Em Do Avesso, a artista conduz o olhar para aquilo que pulsa sob a pele, para os fluxos internos, para as formas simbólicas que emergem de afetos, angústias, desejos e estados de suspensão. O avesso surge como campo de revelação, como passagem para uma dimensão íntima que ganha matéria, linha, textura e presença.
Sua pesquisa parte de experiências vividas no ensino, em contato com crianças, durante práticas de criação que mobilizavam associações e liberdade imaginativa. Desse contexto nasceu um impulso decisivo para a elaboração de um universo visual atravessado por deslocamentos, fragmentos e fabulações. A lógica da colagem permanece como força de pensamento, mesmo quando ela deixa de aparecer literalmente. As imagens se constroem por junções inesperadas, por encadeamentos simbólicos, por relações entre elementos que pertencem ao corpo e ao sonho, à anatomia e ao invisível.
A referência a Frida Kahlo atravessa esse percurso como afinidade poética e conceitual. Interessa à artista a potência de uma figura que parte do próprio corpo e se transforma em personagem, signo e linguagem. A figura presente nas obras carrega esse movimento de auto referência sem se fechar em retrato literal. Trata-se de uma presença que circula entre os trabalhos, reaparece em diferentes estados e sustenta uma narrativa íntima em constante transformação. O corpo, aqui, se converte em território simbólico, suporte de uma experiência interior que busca forma.
A anatomia ocupa papel importante nessa investigação. Órgãos, entranhas, cavidades e fluxos aparecem como extensões de estados emocionais, como se o interior transbordasse em direção ao mundo visível. Em vez de uma leitura descritiva do corpo, a artista constrói uma anatomia sensível, marcada por tensões entre delicadeza e ruptura, recolhimento e expansão. O avesso ganha força justamente nesse gesto de tornar visível aquilo que costuma permanecer encoberto. Cada imagem parece tocar uma região profunda da experiência, fazendo surgir o que vibra por dentro e pede passagem.
Há, nessa produção, uma insistência no que escapa à contenção. Elementos saem do corpo, deslizam para fora de seus limites, ocupam o espaço do papel e do tecido como se a subjetividade excedesse qualquer forma estável. Esse transbordamento assume feições diversas. Em certas obras, carrega peso, angústia, compressão. Em outras, aproxima-se de uma fluidez contemplativa, como um contato delicado com aquilo que ainda guarda mistério. O olhar é convidado a se aproximar com cuidado, entre curiosidade e espanto.
A presença da água percorre algumas séries como matéria sensível e simbólica. Fluxos aquáticos, profundidades e movimentos internos instauram uma atmosfera de suspensão. A partir da ideia de um peixe alojado no ventre, Thayná produz imagens recorrentes, remetendo a uma angústia íntima, a uma sensação densa e móvel, como algo vivo que se agita nas camadas mais profundas do corpo. Essa figura faz do avesso uma experiência de mergulho. Entrar nessas obras exige atravessar superfícies e aceitar a instabilidade daquilo que se move em silêncio em nossas entranhas.
Cada trabalho se liga ao seguinte por recorrências. Algumas formas permanecem, outras retornam ou mudam de intensidade, adquirindo novos sentidos. Há um movimento circular que sustenta o conjunto das obras, como se um trabalho alimentasse o próximo e mantivesse viva a memória do anterior. Esse circuito produz uma narrativa aberta, em expansão, capaz de aprofundar uma mesma questão sem esgotá-la, em uma relação cíclica. O avesso, nesse percurso, se revela como processo contínuo, como campo que se dobra sobre si e gera novas camadas de leitura.
O desenho constitui o núcleo dessa linguagem. É a partir dele que os demais procedimentos se desdobram. Tintas aguadas, papel, tecido e papel artesanal surgem como extensões de uma mesma necessidade expressiva. O gesto desenhado organiza a forma e dá unidade ao conjunto da produção. Quando migra para o bordado, esse traço adquire outra temporalidade. O fio prolonga a linha do desenho e inscreve no tecido uma memória do gesto, uma espécie de permanência tátil da imagem produzida no papel.
Os tecidos bordados guardam relação direta com desenhos que já atravessavam outras produções da artista. Ao passar para esse suporte, tais formas ganham densidade material e expandem seu campo poético. O bordado intensifica a ideia de avesso por sua própria estrutura, por seu verso oculto, por sua trama, por seus caminhos internos. Há algo de profundamente coerente nessa escolha, já que a exposição se organiza em torno daquilo que sustenta a imagem desde dentro, daquilo que vibra antes de se dar plenamente à vista.
A paleta revela rigor e contenção. As escolhas cromáticas concentram a força expressiva em poucos elementos, produzindo densidade em pontos específicos e preservando áreas de respiro. Vazios, bordas, campos pouco preenchidos e manchas de cor instauram ritmos visuais que alternam suspensão e peso. O azul e o amarelo, em determinadas obras, aprofundam a composição e acentuam estados emocionais, como se a cor funcionasse como espessura afetiva da imagem.
A ideia de casa aparece de modo sutil, ligada ao corpo e à experiência de abrigo, deslocamento e instabilidade. Em certos momentos, a figura parece habitar um espaço em transformação, como se os próprios pés se ligassem a fluxos líquidos, como se a base estivesse em movimento. Essa imagem amplia a compreensão do avesso como lugar interno, psíquico e sensorial, um espaço que guarda memória, fragilidade e reinvenção.Em Do Avesso, Thayná Tinarelli constrói uma poética do interno que ganha forma sem perder mistério. Suas obras convocam o olhar para uma experiência de travessia, em que o visível carrega restos do invisível e o corpo se abre como campo de imaginação, afeto e estranhamento. O avesso, longe de ser mero reverso, se firma como espaço vivo de elaboração sensível, como matéria de tudo aquilo que insiste em emergir e transbordar.
Thayná Tinarelli
Do Avesso
A produção de Thayná Tinarelli habita uma zona sensível em que corpo, memória e imaginação se entrelaçam em imagens de grande intensidade poética. Em Do Avesso, a artista conduz o olhar para aquilo que pulsa sob a pele, para os fluxos internos, para as formas simbólicas que emergem de afetos, angústias, desejos e estados de suspensão. O avesso surge como campo de revelação, como passagem para uma dimensão íntima que ganha matéria, linha, textura e presença.
Sua pesquisa parte de experiências vividas no ensino, em contato com crianças, durante práticas de criação que mobilizavam associações e liberdade imaginativa. Desse contexto nasceu um impulso decisivo para a elaboração de um universo visual atravessado por deslocamentos, fragmentos e fabulações. A lógica da colagem permanece como força de pensamento, mesmo quando ela deixa de aparecer literalmente. As imagens se constroem por junções inesperadas, por encadeamentos simbólicos, por relações entre elementos que pertencem ao corpo e ao sonho, à anatomia e ao invisível.
A referência a Frida Kahlo atravessa esse percurso como afinidade poética e conceitual. Interessa à artista a potência de uma figura que parte do próprio corpo e se transforma em personagem, signo e linguagem. A figura presente nas obras carrega esse movimento de auto referência sem se fechar em retrato literal. Trata-se de uma presença que circula entre os trabalhos, reaparece em diferentes estados e sustenta uma narrativa íntima em constante transformação. O corpo, aqui, se converte em território simbólico, suporte de uma experiência interior que busca forma.
A anatomia ocupa papel importante nessa investigação. Órgãos, entranhas, cavidades e fluxos aparecem como extensões de estados emocionais, como se o interior transbordasse em direção ao mundo visível. Em vez de uma leitura descritiva do corpo, a artista constrói uma anatomia sensível, marcada por tensões entre delicadeza e ruptura, recolhimento e expansão. O avesso ganha força justamente nesse gesto de tornar visível aquilo que costuma permanecer encoberto. Cada imagem parece tocar uma região profunda da experiência, fazendo surgir o que vibra por dentro e pede passagem.
Há, nessa produção, uma insistência no que escapa à contenção. Elementos saem do corpo, deslizam para fora de seus limites, ocupam o espaço do papel e do tecido como se a subjetividade excedesse qualquer forma estável. Esse transbordamento assume feições diversas. Em certas obras, carrega peso, angústia, compressão. Em outras, aproxima-se de uma fluidez contemplativa, como um contato delicado com aquilo que ainda guarda mistério. O olhar é convidado a se aproximar com cuidado, entre curiosidade e espanto.
A presença da água percorre algumas séries como matéria sensível e simbólica. Fluxos aquáticos, profundidades e movimentos internos instauram uma atmosfera de suspensão. A partir da ideia de um peixe alojado no ventre, Thayná produz imagens recorrentes, remetendo a uma angústia íntima, a uma sensação densa e móvel, como algo vivo que se agita nas camadas mais profundas do corpo. Essa figura faz do avesso uma experiência de mergulho. Entrar nessas obras exige atravessar superfícies e aceitar a instabilidade daquilo que se move em silêncio em nossas entranhas.
Cada trabalho se liga ao seguinte por recorrências. Algumas formas permanecem, outras retornam ou mudam de intensidade, adquirindo novos sentidos. Há um movimento circular que sustenta o conjunto das obras, como se um trabalho alimentasse o próximo e mantivesse viva a memória do anterior. Esse circuito produz uma narrativa aberta, em expansão, capaz de aprofundar uma mesma questão sem esgotá-la, em uma relação cíclica. O avesso, nesse percurso, se revela como processo contínuo, como campo que se dobra sobre si e gera novas camadas de leitura.
O desenho constitui o núcleo dessa linguagem. É a partir dele que os demais procedimentos se desdobram. Tintas aguadas, papel, tecido e papel artesanal surgem como extensões de uma mesma necessidade expressiva. O gesto desenhado organiza a forma e dá unidade ao conjunto da produção. Quando migra para o bordado, esse traço adquire outra temporalidade. O fio prolonga a linha do desenho e inscreve no tecido uma memória do gesto, uma espécie de permanência tátil da imagem produzida no papel.
Os tecidos bordados guardam relação direta com desenhos que já atravessavam outras produções da artista. Ao passar para esse suporte, tais formas ganham densidade material e expandem seu campo poético. O bordado intensifica a ideia de avesso por sua própria estrutura, por seu verso oculto, por sua trama, por seus caminhos internos. Há algo de profundamente coerente nessa escolha, já que a exposição se organiza em torno daquilo que sustenta a imagem desde dentro, daquilo que vibra antes de se dar plenamente à vista.
A paleta revela rigor e contenção. As escolhas cromáticas concentram a força expressiva em poucos elementos, produzindo densidade em pontos específicos e preservando áreas de respiro. Vazios, bordas, campos pouco preenchidos e manchas de cor instauram ritmos visuais que alternam suspensão e peso. O azul e o amarelo, em determinadas obras, aprofundam a composição e acentuam estados emocionais, como se a cor funcionasse como espessura afetiva da imagem.
A ideia de casa aparece de modo sutil, ligada ao corpo e à experiência de abrigo, deslocamento e instabilidade. Em certos momentos, a figura parece habitar um espaço em transformação, como se os próprios pés se ligassem a fluxos líquidos, como se a base estivesse em movimento. Essa imagem amplia a compreensão do avesso como lugar interno, psíquico e sensorial, um espaço que guarda memória, fragilidade e reinvenção.Em Do Avesso, Thayná Tinarelli constrói uma poética do interno que ganha forma sem perder mistério. Suas obras convocam o olhar para uma experiência de travessia, em que o visível carrega restos do invisível e o corpo se abre como campo de imaginação, afeto e estranhamento. O avesso, longe de ser mero reverso, se firma como espaço vivo de elaboração sensível, como matéria de tudo aquilo que insiste em emergir e transbordar.
Data: 16/04 a 25/05/2026
Local EXL Art Gallery
Entrada gratuita
Rua Dr. Shigeo Mori, 2043, Campinas-SP
Ingressos em: sympla.com.br/exlcampinas