Exposição de Mariana Perissinotto e Naomi Shida
Curadoria: Leonardo Augusto
Bruma sobre o mar, trama sobre a pele reúne obras de Mariana Perissinotto e Naomi Shida em uma exposição realizada pela EXL Galeria, em parceria com a Mono Lisboa. No Brasil, a EXL é uma galeria de arte dedicada exclusivamente ao trabalho de mulheres artistas e à ampliação de sua circulação e visibilidade. Sua atuação compreende as mulheridades como um campo plural, atravessado por experiências de corpo, gênero e sexualidade. Nesse contexto, as pesquisas de Mariana e Naomi se encontram pela diversidade de técnicas, materiais e poéticas com que elaboram corpo, memória e mudança.
Na pintura de Mariana, a imagem se constrói pela sobreposição e pelo desgaste. Camadas de tinta são acrescentadas e depois lixadas, num procedimento recorrente que altera cores, apaga contornos e deixa visíveis vestígios de estados anteriores da pintura. A abrasão integra a própria imagem e é por meio dela que a figura se aproxima da bruma, parcialmente preservada e parcialmente perdida.
Essa instabilidade atravessa também a relação entre corpo e paisagem. Em Banhistas e Espelho d’água, a presença da água reorganiza as figuras, os reflexos e a profundidade do espaço, aproximando corpo e ambiente. O Barco e Solstício ampliam essa sensação de suspensão, como se as cenas ocupassem um tempo próprio, marcado pela permanência, pela espera ou pela travessia. Em Abraço e Penumbra, a atmosfera se adensa e a proximidade entre os corpos desloca a atenção para experiências de intimidade, recolhimento e vulnerabilidade. Partida e Mysterium Tremendum, por sua vez, aproximam-se de situações de passagem.
Na produção de Naomi, o corpo passa a ser construído pela própria matéria. Tecidos, fibras, miçangas e anzóis formam superfícies híbridas, nas quais fragmentos se unem sem esconder as marcas de suas junções. O mar torna-se território de deriva, naufrágio, sobrevivência e recomposição. Em Naufrágio, em águas rasas encontro os destroços de um tempo, aquilo que retorna à superfície já não corresponde ao que submergiu. A mesma lógica atravessa Mar-morto-corpo I–VI, em que banquetas incorporam tecidos e formas orgânicas e se tornam corpos híbridos constituídos pela coabitação.
Carne abissal condensa essas questões em uma forma suspensa e vulnerável, na qual a carne parece adquirir outras configurações para permanecer. Em Tornar-se mulher: nem todo naufrágio é o fim, mas o início de uma luta, o corpo ganha dimensão biográfica e política. A obra articula a transgeneridade de Naomi, seu processo de transição de gênero e a violência social dirigida às pessoas trans. O naufrágio deixa então de ser apenas uma imagem de ruptura e se aproxima da possibilidade concreta de destruição.
Esse percurso atravessa também Seleção natural. Durante sua transição de gênero, Naomi afastou-se da pintura tradicional e encontrou no bordado e nas técnicas têxteis outros modos de elaborar o corpo. Seu retorno ao óleo incorpora esse percurso. A pintura reaparece atravessada pela costura, pelos símbolos da pesquisa e por uma compreensão do corpo como matéria continuamente elaborada.
Entre as pinturas de Mariana e os corpos construídos por Naomi, a exposição aproxima procedimentos distintos sem reduzir uma pesquisa à outra. A bruma nasce daquilo que se acumula, se desgasta e permanece como vestígio e a trama, daquilo que se conecta, se costura e conserva visíveis suas tensões. Entre a superfície e o abismo, apresenta-se a possibilidade de continuar existindo depois da mudança, conservando as marcas do percurso e produzindo, a partir delas, outras formas de presença.
mono Lisboa
R. Feio Terenas 31A, 1170-176 Lisboa, Portugal
De quarta a sábado, das 15h às 19h