Uma exposição de Laura Fernandes
No trabalho de Laura Fernandes, os trabalhos se entrelaçam em uma tessitura diversa, mas única. O conjunto de obras se prolonga e se transforma de uma linguagem em outra. Fotografia, cianotipia, bordado, escrita e audiovisual aparecem como partes de uma trama simbólica, na qual sonho e realidade se entrelaçam para elaborar o universo simbólico da artista.
A cianotipia, junto ao azul, atravessa toda a exposição. O azul ratifica a atmosfera onírica e tecnologia ancestral desejada por Laura. Nesse campo, o sonho deixa de ser experiência subjetiva e se afirma como forma de conhecimento ancestral. Em sua dimensão familiar, sonhar se relaciona a conselhos e avisos, um modo de escuta e orientação que articula cuidado, proteção e continuidade da vida.
Essa relação entre sonho, ancestralidade e mundo simbólico se intensifica na presença dos adinkras, sistema de ideogramas do povo Akan, da África Ocidental, presentes nas obras como signos de conselho, memória e transmissão. “O carneiro quando ataca não faz com o chifre, faz com o coração” e “ouvi e guardei” reverberam enunciados representados pelos adinkras. Nessas imagens se inscreve uma ética do sentir, do lembrar e do resguardar.
Nas fotografias, cenas do cotidiano, tarefas domésticas, espelhos, roupas, plantas e gestos repetidos instauram uma dramaturgia íntima na qual corpo e memória se confundem. O corpo, central na produção de Laura, não se oferece como objeto. Ele se constitui no simbolismo de um eu profundamente pessoal, atravessado por experiências afro-diaspóricas, femininas e familiares. Vestir-se, adornar-se, aparecer bonita e cuidar de si surgem no autocuidado e refletem-se nos balangandãs.
A casa da artista, escolhida como cenário recorrente, torna-se extensão dessa narrativa. Nela, plantas, raízes, folhas, linhas, chaves e tesouras emergem de forma repetida ou pontual, como elementos que condensam afetos e lembranças. A chave aponta para a necessidade de guardar-se e proteger-se, indicando uma proteção subjetiva. A tesoura, ligada à memória do avô, convoca o imaginário de cortar o mal pela raiz. A raiz, por sua vez, reafirma a conexão entre família, origem e permanência, uma dicotomia ao que se deve manter e ser extirpado. Cada objeto desloca o cotidiano para uma zona de fabulação, na qual o visível carrega camadas de sentido nem sempre plenamente reveladas.
Esse jogo entre revelar e ocultar também se manifesta no plano formal ao incorporar bordado, recortes e tecidos de diferentes composições, além do método de revelação e suporte fotográfico. Laura tensiona a superfície da imagem, explora textura e tridimensionalidade e ratifica a cena como experiência tátil e temporal. Há uma recusa em entregar tudo de imediato. Palavras surgem expostas, fragmentadas, parcialmente ilegíveis, como pensamentos que se anunciam sem se deixarem capturar por inteiro, ao mesmo tempo que são jogadas claramente ao nosso consciente. O inconsciente, em contrapartida, não aparece como tema ilustrado e passa a atuar como método de construção.
No vídeo, esse princípio se prolonga em um registro no qual o processo se apresenta como sonho e o azul é o estado permanente que também amarra o espaço expográfico. As imagens, atemporais, preservam uma qualidade suspensa, como se habitassem um intervalo entre lembrança e pressentimento. Ao longo da mostra, outras mulheres da família aparecem de forma simbólica e compõem uma espécie de ode às mulheres que sustentam, aconselham, cuidam e transmitem.
Nascida e criada na periferia de Campinas e graduanda em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Laura Fernandes desenvolve uma produção que investiga identidade, memória e ancestralidade por meio da fotografia, do desenho e da escrita. A partir de arquivos fotográficos familiares, relatos orais e experimentações técnicas, da impressão com pigmentos minerais em canvas à cianotipia, constrói narrativas e reinventa modos de lembrar e trabalhar a tecnologia ancestral. Em sua obra, o azul persiste como elo entre tempos e a imagem se afirma como materialidade em que o íntimo transborda.
Serviço
Em sonho de passarinha, o sol tem um brilho azul, de Laura Fernandes
Curadoria de Leonardo Augusto
Data 19 a 28 de março
Local EXL Art Gallery
Entrada gratuita
Ingressos sympla.com.br/exlcampinas