Luiza Testa

Desde o início do século XX, espaços de arte independentes têm desempenhado um papel decisivo na história da produção artística ao acolher vozes sistematicamente excluídas das instituições canônicas. Criados muitas vezes à margem dos museus e do mercado, esses espaços surgiram como zonas de experimentação e insurgência, especialmente para mulheres e corpos dissidentes, que encontraram ali a possibilidade de produzir, expor e pensar a arte a partir de suas próprias experiências e urgências.

Inúmeros espaços tornaram-se referências fundamentais dessa história contra-hegemônica. A Woman’s Building, em Los Angeles, foi decisiva para o fortalecimento da arte feminista nos anos 1970, enquanto a A.I.R. Gallery, em Nova York, consolidou-se como a primeira galeria cooperativa gerida por mulheres nos Estados Unidos. Na Europa, espaços como o Studio Voltaire, em Londres, e a OFF-Biennale, em Budapeste, tornaram-se referências internacionais por seu modelo independente de apoio a artistas e curadorias críticas. Na América Latina, projetos como a Casa do Povo, em São Paulo, e Lugar a Dudas, em Cali, vêm articulando arte, formação e pensamento a partir de perspectivas experimentais e autônomas, reafirmando a importância da coletividade como estratégia histórica de sobrevivência. Em Campinas, essa tradição também se manifestou em iniciativas como o histórico Ateliê Aberto e outros espaços autônomos que, ao longo das últimas décadas, sustentaram uma cena independente ativa e crítica no interior paulista.

Acompanhei de perto os ciclos de surgimento e desaparecimento de espaços independentes em Campinas e sempre desejei que a cidade reconhecesse, de forma mais consistente, sua própria potência cultural. É nesse contexto histórico e político que surge a EXL que, desde 2022, vem consolidando sua atuação por meio de uma programação que evidencia uma questão central na arte contemporânea: a reconfiguração do corpo como campo de disputa simbólica e política. Estruturada a partir de uma residência anual de 12 meses que oferece apoio financeiro, acompanhamento crítico e inserção pública por meio de exposições e ocupações da casa, a EXL propõe condições concretas para que artistas desenvolvam suas pesquisas no longo prazo.

As exposições realizadas até aqui revelam recorrências formais e conceituais em torno da corporeidade, da vulnerabilidade, da construção identitária e da materialidade do gesto. A recorrência do corpo aponta para uma geração que entende a prática artística como modo de reinscrever a experiência encarnada no espaço público, ecoando a tendência contemporânea de repensá-lo como construção histórica, atravessada por gênero, tecnologia, violência e imaginação.

Localizada no distrito de Barão Geraldo e próxima ao Instituto de Artes da UNICAMP, a EXL também se configura como um espaço de escoamento e continuidade para a formação de jovens artistas, oferecendo um ambiente de experimentação e profissionalização que dialoga com a produção acadêmica local. Busca, no entanto, costurar relações externas ao âmbito regional, tendo feito exposições, por exemplo, em São Paulo.

A EXL nasce com uma vocação contra-hegemônica, tendo em seu cerne o ativismo curatorial. Sobre esse assunto, evoco Maura Reilly e sua insistência por “exposições que desafiem o status quo, que resistam à reprodução de narrativas dominantes e que busquem ativamente reparar exclusões históricas. O ativismo curatorial não se trata de tokenismo, mas de uma transformação estrutural e sustentada na maneira como exibimos, interpretamos e valorizamos a arte”.[1]  

Ao colocar em diálogo a história local com outros espaços dentro e fora do Brasil, a EXL posiciona o interior no centro, articulando as micro e macro esferas; afirma-se como lugar de produção crítica, onde o corpo e a dissidência são fundamentais. Cumpre, portanto, com o que se espera de um espaço independente: traçar caminhos para que a cidade e seu entorno possam projetar-se e sustentar os processos por eles formados.


[1] REILLY, Maura. Curatorial Activism: Towards an Ethics of Curating. London: Thames & Hudson, 2018. Tradução livre.

Luiza Testa é bacharel em letras pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em teoria crítica (Critical Theory and the Arts) pela School of Visual Arts – New York. Em 2017 foi estagiária no departamento de Curadoria do museu Solomon R. Guggenheim, em Nova York.